Difícil é Educá-los (David Justino)

Fomos dos primeiros países do mundo a adoptar a escolaridade obrigatória, o que fizemos em 1844. Mas, como se reconhecia na época, esta legislação pouco efeito teve e rapidamente caiu «em desuso». Por meados do século XIX, Portugal apresentava uma das mais baixas taxas de alfabetização da Europa (aproximadamente 15%) e esse último lugar, bem no fim da tabela, repetia-se um século depois, não obstante termos passado para uma taxa perto dos 55%. Os países do Norte da Europa, particularmente os de tradição protestante, por meados do século XIX já atingiam taxas de alfabetização próximas dos 95%.
Pag. 16

Ou seja, quase tudo o que tem sido correntemente invocado entre nós como requisitos para melhorar a educação (mais investimento, mais horas lectivas, turmas mais reduzidas e relação «mais favorável» do número de alunos por professor) é completamente contrariado pelos resultados obtidos por estes países.

[Hungria, República Checa, Polónia, Eslovénia]
Pag. 19

De há muito que é reconhecida a dificuldade em conciliar o aumento rápido da escolaridade média de uma população com a manutenção de níveis de qualidade educativa. As experiências estudadas para diversos países permitem sustentar essa regra, tanto quanto identificam algumas excepções dignas de reflexão.
Pag. 34

Em 1960, o rácio era de 30 alunos para um professor, em todo o ensino do pré-escolar até ao secundário. Em 1985, esse razão desceria para 15 e em 2005 para 10.
Este último valor, 10 para 1, posiciona Portugal entre os países da OCDE com o mais baixo rácio aluno/professor. Aparentemente, esta relação mais baixa deveria ser um contributo positivo para a qualificação das aprendizagens. Contudo, perto de nós estão países como a Grécia, a Lituânia ou o Liechtenstein, que não primam por bons resultados obtidos nos testes internacionais. Pelo contrário, países que nesses testes internacionais têm obtido melhores resultados apresentam rácios muito mais elevados: Finlândia (15/1), Holanda (16/1), Japão (16/1), Alemanha (17/1).
Pag. 46 e 47

Criou-se mesmo a ideia, em largos sectores da opinião pública, de que todo o dinheiro aplicado na educação é boa despesa que só peca por escassa e bom investimento que o futuro se encarregará de fazer florescer.
Não será esta a tese que defenderei neste ensaio e tentarei demonstrar que estamos muito longe desse ideal que o senso comum transformou em axioma inquestionável.
Pag. 65

Esquecem que a a melhor forma de atingir esse fim não será «descer» ao aluno, mas fazê-lo «subir» a um nível superior de capacidade intelectual. As deficiências culturais só se superam com mais trabalho, maior capacitação e não iludindo a sua existência. Por isso, na maior parte dos casos, a preocupação de descriminar positivamente os mais fracos traduz-se num reforço dessa mesma fragilidade.
Pag. 90

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