Galileu

Faz hoje 373 anos que se iniciou um dos julgamentos mais famosos da história da humanidade. Não só o julgamento de um homem das de todo o espírito critico e inventivo de uma época. Galileu compareceu perante o Tribunal do Santo Ofício por defender a teoria heliocêntrica que contrariava as Sagradas Escrituras contra a física aristotélica e o sistema geocêntrico de Ptolomeu (127-145 d.C.),.

A sentença foi lida no dia 22 de Junho desse ano. Leve para o padrão da Inquisição: abjuração formal das suas posições «abjuro, maldigo e detesto os citados erros e heresias», récita semanal de Sete Salmos Penitenciais (que foi autorizado a transferir para uma filha sua religiosa clarissa), prisão domiciliária que Galileu aproveitou para redigir o Discurso e demonstrações matemáticas com respeito às duas novas ciências.

Em 1981uma comissão de teólogos, historiadores e cientistas foi nomeada por João Paulo II para rever o processo. Onze anos depois a comissão apresentou as suas conclusões.

 

«Em 3 de Julho de 1981 institui uma ‘Comissão pontifícia para o estudo da controvérsia ptolemaico-copernicana dos séculos XVI e XVII’, Comissão à qual concedeu toda a liberdade para investigar e esclarecer esta controvérsia. O Papa afirmou no seu discurso que não há contradição entre ciência e religião, e que ambas confluem para a verdade que todos devemos procurar acima de tudo. Em 31 de Agosto de 1992, João Paulo II agradeceu à Comissão a apresentação do resultado dos seus trabalhos. Nessa ocasião o Papa reconheceu lúcida e corajosamente ‘os erros dos teólogos de então’, sem deixar porém de colocar estes erros na complexa situação cultural do século XVII.»

 

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid=30645

 

 

 

Poema para Galileo

de António Gedeão

 

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce

sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.

Disse Galeria dos Ofícios.)

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

 

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… eu sei…

As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileo Galilei!

 

Olha. Sabes? Lá em Florença

está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.

Palavra de honra que está!

As voltas que o mundo dá!

Se calhar até há gente que pensa

que entraste no calendário.

 

Eu queria agradecer-te, Galileo,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu,

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar- que disparate, Galileo!

– e jurava a pés juntos e apostava a cabeça

sem a menor hesitação-

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.

 

Pois não é evidente, Galileo?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

 

Estava agora a lembrar-me, Galileo,

daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo

e tinhas à tua frente

um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo

a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,

que parecia impossível que um homem da tua idade

e da tua condição,

se tivesse tornado num perigo

para a Humanidade

e para a Civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade,

os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

 

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,

desceram lá das suas alturas

e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,

nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual

conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias

nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,

aquelas abomináveis heresias

que ensinavas e descrevias

para eterna perdição da tua alma.

Ai Galileo!

Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo

que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,

andavam a correr e a rolar pelos espaços

à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

 

Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias, a todos os contratempos,

enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo,

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa do quadrado dos tempos.

 

António Gedeão, 1964 in Poesias Completas para assinalar o IV Centenário do nascimento de Galileu Galilei

 

 

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